A Paráfrase - Uma recriação textual
Antes de
começarmos a entender sobre a maneira pela qual se conceituam estes termos, é
importante lembrarmos sobre a questão da intertextualidade. A intertextualidade se dá através do diálogo
estabelecido entre dois textos. Mas de que forma isso acontece?
Um exemplo bem
simples é o título de uma redação, pois o “assunto” a ser discutido
intertextualiza com nossas ideias, nosso conhecimento de mundo, ou seja,
ninguém escreve ou fala sobre aquilo do qual não conhece ou não ouviu falar.
Podemos tecer
um texto intertextualizando uma música, uma pintura, uma reportagem publicada
em um jornal, um assunto polêmico que circula na mídia, e muitos outros. Agora
começaremos a entender mais sobre a paródia e paráfrase, que também são formas
de intertextualização.
A paráfrase
origina-se do grego “para-phrasis” (repetição de uma sentença). Assim,
parafrasear um texto significa recriá-lo com outras palavras, porém sua
essência, seu conteúdo permanecem inalterados.
Veja:
Veja:
Texto Original
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias, “Canção do exílio”).
Paráfrase
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos
Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.
Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?
Eu tão esquecido de minha terra…
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá!
(Carlos Drummond de Andrade, “Europa, França e Bahia”)
Podemos notar
que o poeta modernista Carlos Drummond de Andrade faz somente uma recriação
daquilo que Gonçalves Dias já havia criado na era romântica.
A seguir segue em artigo de opinião de autoria de Lya Luft para debate em grupo e, posteriormente, para exercitar a paráfrase em alguns parágrafos do texto em estudo.
LYA LUFT: A roubalheira repulsiva e a nação
estarrecida
Os
extraordinários fatos que nas últimas semanas vêm se desenrolando diante dos
nossos olhos estupefatos, a série de denúncias logo comprovadas de corrupção em
órgãos estatais e partidos políticos, deixam-nos alertas: o que fizemos? Como
permitimos que tudo isso chegasse a esse ponto — que nos parece quase sem volta
—, exigindo terra arrasada para começar a construir, do erro, uma nova nação?
Pode até haver
chefes que, em qualquer escalão, não percebam a corrupção entre seus
funcionários, se for um breve episódio; mas, se se prolongar por um pouco de
tempo que seja, denota grave incompetência de parte dos mandantes. Se souberem
e fecharem os olhos permitindo que os crimes continuem, porque “afinal no
Brasil é assim, sempre foi assim, e assim é por toda parte”, serão pelo menos
cúmplices, ainda que não metam a mão pessoalmente no dinheiro (que neste caso
se acumula em milhões e bilhões).
Dinheiro que
faz uma desesperada falta em todos os aspectos tão carentes do país de que os
responsáveis não cuidaram, ocupados em conseguir mais poder.
A roubalheira
é ainda mais repulsiva, pois não se trata de roubar o não essencial, mas de
tirar do prato dos pobres a comida, o dinheiro do remédio, os livros, mesas e
cadeiras da escola, instrumentos e pessoal de hospitais e postos de saúde,
possibilidade de tráfego aos caminhões que transportam alimento e bens de
consumo, funcionamento ou mera manutenção das imensas engrenagens deste pobre
país, que agora podemos chamar de “pobre” nos dois sentidos, material e moral.
Pobres de nós,
que não sabíamos porque olhávamos para o outro lado, porque éramos mesmo
ignorantes, porque acreditamos nos líderes errados, porque não nos informamos,
porque não estávamos nem aí.
O que vai
acontecer? Ao que vemos, muito mais denúncias, provas, prisões e — espero —
condenações. Como ocupar os lugares de mando vazios? Que seja com gente
competente, não com apaniguados e correligionários. Que seja com gente
corajosa, disposta a enfrentar desafios que dinheiro nenhum compensa.
Todos de certa
forma permitimos que acontecesse o que agora nos horroriza, ao menos a nós que
acordamos, ou sempre denunciamos, nós que nos preocupamos tardiamente ou que já
havia um bom tempo balançávamos a cabeça prenunciando os dias de hoje. “Virão
tempos sombrios”, dizíamos uns aos outros: pois chegaram.
Uma inflação
descontrolada, uma população assustada e a cada dia mais empobrecida,
endividada e desatendida, autoridades confusas e desnorteadas, algumas tentando
salvar o que pode ser salvo e corrigir o que pode ser corrigido, delineiam uma
boa temporada de sofrimento para quase todos nós.
Aqueles em que
tantos acreditaram nutrem pensamentos delirantes em sua ilha da fantasia,
negando a tragédia que ocorre debaixo de seus olhos: pobreza, inflação
descontrolada, endividamento em massa, decadência da educação, saúde, moradia,
transporte, segurança e dignidade, e — pior de tudo — a morte lenta da
confiança. Eles de todos os modos procuram pateticamente negar o verdadeiro
drama que nos assola a todos, sem exceção.
A nação estará
estarrecida? O título desta coluna reflete o que eu sinto e o que desejaria que
todos sentissem. Parte do país finalmente abre os olhos, aponta as orelhas e
atina com a realidade dura destes tempos que apenas começam a se revelar
incrédulos. Porém, há semanas multidões requebram ao ritmo das músicas de
Carnaval — porque afinal ninguém é de ferro.
Não sou contra
o Carnaval, mas imagino que, quando elas despertarem para a realidade depois
dessas festas, se botassem nariz de palhaço e voltassem às ruas, não para
dançar enquanto o Titanic afunda, mas para protestar e exigir, poderiam salvar
o que ainda pode ser salvo.
Que os deuses — e técnicos
competentes — nos ajudem, e esta nau brasileira não se rompa, não se destroce,
mas se equilibre e, ainda que penosamente, suba à tona e retome algum tipo de
rota salvadora — antes que se apaguem as últimas luzes desta maltratada pátria.
Artigo publicado em edição
impressa de VEJA em 21/02/2015 às 18:53
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